Tariq Ali: ‘Um escritor de vários países’

Interviw with Correio Braziliense March 1, 2012.

Convidado para participar da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, o paquistanês Tariq Ali mira suas palavras contra o neoliberalismo e as ações dos EUA no mundo islâmico

A democracia pode ser comparada a uma noz vazia: depois de esmagada no chão, constata-se que não há nada dentro. Tariq Ali não pensou na animação A era do gelo, mas gostou da metáfora ao ponto de repeti-la em diversas entrevistas. Membro do conselho editorial da The new left review, o paquistanês radicado em Londres, e conhecido como um dos intelectuais de esquerda mais críticos da contemporaneidade, acredita que a democracia está doente, que os Estados Unidos precisam rapidamente de um novo partido e que a Europa está se autoimplodindo.

Ali desembarca em Brasília em abril para participar da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Vem lançar A noite da borboleta dourada, o último romance do Quinteto Islã, no qual narra a história da civilização islâmica desde os tempos de Saladino. O autor finaliza a série com uma história contemporânea. No livro, o narrador Dara, residente em Londres, vasculha lembranças da Fatherland (termo usado para se referir ao Paquistão) para escrever a história do artista Plato, emigrante paquistanês cujo amor de juventude foi oferecido a outro na terra natal. Personagens como Naughty Latifa, uma dona de casa devassa que dorme com homens poderosos na Londres contemporânea, e Dù Wénxiù, responsável por liderar uma revolução muçulmana na China, perpassam a narrativa de Ali.

O livro veio como resposta elegante a uma queixa recebida pelo autor desde o início do quinteto. “Recebi tantos e-mails e cartas reclamando nas duas últimas décadas, muitas pessoas perguntando ‘por que nunca escreve sobre seu próprio país?’. Eu o faço, e muito, mas não na ficção. Escrevi três livros sobre o Paquistão. A história real da Fatherland é mais original do que a melhor ficção. O que eu posso fazer?”, repara. Não só o Paquistão é alvo dos ensaios de Ali. O discurso afiado quando se trata de alvejar o neoliberalismo, o “imperialismo” norte-americano, o autoritarismo dos governos extremistas do Oriente Médio e a voracidade bélica de Israel estão em dezenas de livros publicados na última década.

Em Duelo (2010), Ali esmiuça a política de cooperação entre EUA e Paquistão. O Muro de Berlim, o idealismo comunista de Fidel Castro e o “Eixo da esperança” formado por Hugo Chávez, Evo Morales e Castro foram temas de livros recentes, todos publicados no Brasil. De Londres, onde mora, Ali conversou com o Diversão&Arte sobre os conflitos na Síria, a opção literária em A noite da borboleta dourada e a crise econômica na Europa.

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