Ação dos EUA na Síria quer atingir Irã, trará instabilidade e não ajudará povo, diz Tariq Ali

Folha – O que vai acontecer na Síria?

Tariq Ali - Os EUA estão determinados a ir à guerra para tentar mudar o governo. Não tem nada a ver com considerações humanitárias. Os principais aliados dos EUA na região –Israel,
Arábia Saudita, Catar e Turquia– estão pedindo uma intervenção norte-americana há 18 meses. Porque eles não acham que podem ganhar a guerra civil. Os EUA vão agir para que a guerra civil seja ganha pelos seus aliados, derrubando o regime.

Quais são as razões para a guerra?

A guerra é sobre o Irã, o Hizbullah, o Líbano. Sobre assegurar que os que eles apoiam ganhem na Síria. A guerra tem três objetivos: o Irã, destruir um regime que tem ajudado o Hizbullah e colocar no poder na Síria a Irmandade Muçulmana. Com isso, mudar o balanço de poder na região, afastando o poder do Irã.

Obama está, assim, ficando do mesmo lado da Al Qaeda?

Sim, claro. Os norte-americanos lutaram com a Al Qaeda contra os russos no Afeganistão. Usaram a Al Qaeda para derrotar [Slobodan] Milosevic na Bósnia. Agora estão usando a Al Qaeda novamente para derrotar o governo secular na Síria. Eles fazem o que é melhor de acordo com os seus interesses.

Como avaliar a reação da opinião pública a um eventual ataque? No Reino Unido houve protestos e o parlamento rejeitou a possibilidade da guerra. Nos EUA também há resistências.

Há uma porção grande de americanos, creio que 48%, que estão contra a guerra. A opinião pública europeia é contra a guerra. Obama sabe disso. Está tentando construir um argumento para a guerra falando em caso humanitário. Mas, basicamente, ele não é melhor do que [George W.] Bush. Houve mais continuidade com a administração Bush do que descontinuidade.

Como se pode prever o futuro de uma intervenção como essa?

Se Obama intervier, se bombardear a Síria e remover Assad do poder, haverá guerra e instabilidade naquela região por mais dez anos. Quem se beneficiará disso? O povo é que não.

E quem se beneficiará com essa guerra?

As companhias europeias que investem em petróleo, o complexo industrial militar dos EUA, os comerciantes de armas, especialmente dos EUA e da Europa.

Essa também é uma guerra sobre petróleo?

Guerras são sempre a respeito de recursos naturais. Mas essa não é exclusivamente uma guerra sobre petróleo. É parte da campanha que fazem os EUA, desde o fim da Guerra Fria, para remodelar o mundo de acordo com os seus interesses. Essa foi a razão por trás da invasão do Iraque e é isso que ocorre agora na Síria. É preciso lembrar que quando Bagdá caiu, o embaixador israelense nos EUA parabenizou o governo norte-americano, mas disse que o trabalho não tinha terminado: que era preciso ir a Damasco e a Teerã. Essencialmente é isso que está acontece agora. Depois da Síria, vão querer enfraquecer Teerã. Há 20 anos, os israelenses tentam, sem sucesso, destruir o Hizbullah. Acreditam que, sem a ajuda da Síria, eles podem ter êxito. Seja o que for, não haverá paz no Oriente Médio.

Ninguém pode frear o governo dos EUA?

O povo dos EUA pode, e o Congresso norte-americano pode tentar. Fora dos EUA o que se pode fazer é isolá-lo e fazer críticas. Ninguém pode desafiá-lo militarmente. Mas politicamente ele pode ser desafiado e isolado. Leia mais